segunda-feira, 7 de maio de 2012

Celular em centro cirúrgico aumenta risco de infecção aos pacientes


O vazamento de imagens de uma cirurgia realizada no último dia 20 no Hospital Universitário (HU) da Universidade Estadual de Londrina (UEL), além da questão ética, chama a atenção pela presença maciça de um elemento potencialmente contaminante dentro do centro cirúrgico: o aparelho celular. No vídeo que circulou na Internet, vários estudantes de Medicina aparecem registrando a cirurgia com celulares. O fato acirra as discussões sobre infecção hospitalar, já que, recentemente, o HU passou por problemas com uma bactéria super resistente, que chegou a matar pacientes.
De acordo com a reitora da UEL, Nádina Moreno, além da abertura de uma sindicância para apurar o que os estudantes faziam no centro cirúrgico e quem autorizou a entrada deles, o uso de celulares foi proibido nos sete centros cirúrgicos do HU. “O HU hoje é um dos poucos hospitais que tem a questão da infecção hospitalar muito próxima de zero, e temos que primar por isso. O paciente chegou lá com esse problema complexo, fez a cirurgia, e foi um sucesso. Nem os médicos sabem como ele saiu vivo e, na terça, ele tinha recebido alta.”
Celular tem mais bactérias que sola de sapato
O biomédico Roberto Figueiredo, o Dr. Bactéria, explica que o celular tem uma quantidade maior de bactérias que a sola de um sapato. “E são bactérias mais perigosas, porque a sola do sapato tem contato com o sol, que é um agente esterilizante. Já o celular está em contato direto com gotículas de saliva, e transmite uma quantidade enorme de bactérias.” Isso acontece porque, embora as pessoas higienizem as mãos, o mesmo não ocorre com o celular. “Quem não vai ao banheiro e atende o celular, se tocar? Esse aparelho não poderia entrar num centro cirúrgico de maneira alguma. É um objeto que nem deveria ser emprestado.”
Figueiredo ensina que o telefone celular deve ser higienizado uma vez por semana, com álcool isopropílico. No caso de pessoal médico, essa limpeza precisa ser feita uma vez ao dia. “Esse álcool é vendido em farmácia de manipulação. Você espirra um pouco em um lenço de papel e limpa o aparelho.”
“É uma aberração”, diz advogado
O advogado Gilberto Baumann de Lima, que tem seis livros publicados na área de bioética e direito da saúde, explica que o uso dos celulares no caso do HU é um caso de violação da imagem do paciente. “Isso só pode ser feito mediante consentimento da pessoa. O rapaz foi identificado e pode ser prejudicado, física e moralmente. O médico é o guardião do paciente e, nesse caso, permitiu que pessoas colhessem imagens.”
Além de processos judiciais por danos morais e materiais, tanto médicos quanto enfermeiros podem sofrer processos éticos por parte dos conselhos aos quais são subordinados. “Isso é uma aberração. É muita falta de preparo.” Segundo Baumann de Lima, embora o hospital possa disciplinar o uso de celular, cabe ao médico conhecer as normas técnicas e deixar o aparelho fora da sala de cirurgia. “Mas o paciente pode dizer que não quer que ele use o celular enquanto o opera, porque é um absurdo.”
Protocolos
Os hospitais brasileiros contam com uma Comissão de Controle da Infecção Hospitalar (CCIH) regulada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), que segue protocolos específicos para reduzir ao máximo os casos de infecção hospitalar. “A mortalidade relacionada a infecções hospitalares ainda é alta. Não dá para mensurar, porque é institucional. Mas, de maneira geral, ainda é uma das principais 2causas de morte”, explica a supervisora do CCIH do Hospital Evangélico, Kátia Regina Gomes Bruno. Segundo a enfermeira, 80% das infecções cirúrgicas ocorrem por microorganismos do próprio paciente. “Mas existem os outros 20%, que merecem atenção.”
Para Kátia, embora as infecções hospitalares sejam multifatoriais, o celular é um dos fatores que contribuem para a incidência dessas infecções. “Não existe uma lei que proíba celulares em centros cirúrgicos. Mas sabemos que eles não deveriam estar lá. Além da questão ética e de contaminação, ele desvia a atenção do ato operatório. Mesmo que alguém não paramentado segure o aparelho para o médico, ele muda o corpo de posição para falar, e isso pode influenciar na cirurgia”, avalia.
A infectologista Joseani Pascual Garcia, membro da Sociedade Brasileira de Infectologia, acredita que não se pode condenar completamente o uso do telefone celular, já que ele pode ser um instrumento necessário para o médico se comunicar com outros pacientes que precisem de uma orientação durante a cirurgia. Segundo ela, o risco de infecção não aumenta se o cirurgião não colocar a mão no aparelho. “Jamais um médico vai segurar o celular, mas um auxiliar pode colocar no ouvido dele.”

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