sexta-feira, 18 de maio de 2012

Gravações detalham pagamento do suborno


O ex-funcionário público Ludovico Bonato, preso em flagrante desde o dia 24 de abril, quando entregou R$ 20 mil em dinheiro ao vereador Amauri Cardoso, na tentativa de comprar o voto do tucano, procurou o ex-secretário Marco Cito na porta da Sercomtel para pegar o dinheiro. Cito indicou que ele fosse à Prefeitura, de onde Bonato manteve contato com o chefe de gabinete, Rogério Ortega, e com o próprio Cito, para combinar o local onde receberia o envelope de dinheiro que foi entregue a Cardoso. Pouco depois de entregar o envelope ao tucano, Bonato foi preso em flagrante. Cito foi preso na sequência. Ortega e o ex-diretor de Participações da Sercomtel, Alysson de Carvalho, escaparam da prisão em flagrante. Foram presos na semana seguinte, em 1º de maio, junto com o vereador Eloir Valença (PHS). Carvalho e Valença foram libertados. Os demais acusados continuam presos.

O JL teve acesso ontem à tarde ao processo que investiga a denúncia de compra de votos na Câmara. Parte da degravação dos telefonemas interceptados está liberada para consulta. A transcrição dos diálogos de Cardoso com Cito, feitos pessoalmente, ainda não estão no processo porque não foi concluída a perícia, segundo informou o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco).

Nas conversas por telefone para pegar o envelope, Bonato chegou perto do gabinete do prefeito Barbosa Neto (PDT), conforme ele mesmo relata em conversa gravada com os promotores Renato Lima Castro, Cláudio Esteves, Jorge Costa e com policiais do Gaeco. Depois de chegar perto do gabinete, o ex-funcionário público vai até os fundos da prefeitura, acompanhado por Cito, ao encontro de Carvalho. Cito entrou no carro do ex-diretor da Sercomtel, pegou um envelope, chamou Bonato para perto do seu carro, pegou outro envelope e entregou a ele. No envelope estavam os R$ 20 mil apreendidos pelo Gaeco.
Depois de entregar o envelope a Cardoso, Bonato ainda telefona para Ortega e desabafa: “agora vocês me pagam o almoço aí, velho, que sufoco esse negócio.”
“Então tá bom, beleza, depois nos falamos”, responde o chefe de gabinete. Bonato ainda pergunta se Ortega avisa a Cito que “tá tudo certo” e chefe de Gabinete responde que já falou com ele. “Tá tudo tranquilo”, afirmou.
Em outra ligação, com o seu irmão, Sérgio Bonato (casado com Silvana, assessora de Valença), o ex-funcionário público diz que “todo homem tem um preço e os políticos do Brasil tá num leilão tá tudo na promoção (sic)”. Antes disso, Sérgio havia revelado que sua esposa estava irritada com Valença por ele ter “virado a casaca”.
Na véspera de ser preso, em 1º de maio, o vereador Eloir Valença (PHS) pediu, num telefonema ao prefeito Barbosa Neto (PDT), ajuda para levar Amauri Cardoso (PSDB), autor da denúncia do suposto esquema de compra de votos, para a Comissão de Ética da Câmara. “E da parte da Câmara, vou precisar inclusive, vou precisar da tua da tua complacência aí, é, para eu chamar outros vereadores pra gente fazer... botar o cara no Comitê de Ética, dentro da Câmara”, diz Valença. Ele avalia com Barbosa o seu depoimento no Gaeco, dizendo que foi “tranquilo”. “Levantaram algumas situações lá e eu fui bastante enfático e incisivo e é não tem nada que esconder, né Barbosa”, afirma. Lacônico, o pedetista diz que “graças a Deus não tem nada”.

Valença chega a marcar uma conversa com o prefeito para a manhã seguinte, mas não houve tempo. Ele foi preso nas primeiras horas da manhã. O vereador afastado foi procurado ontem pelo JL, mas não atendeu o seu telefone celular. O Núcleo de Comunicação da prefeitura pediu um posicionamento do prefeito, mas não houve retorno.
Veja a degravação das gravações:
23 de abril
Às 14h26 do dia 23 de abril, véspera da prisão em flagrante, Ludovico Bonato fala com o seu irmão, Sérgio Bonato, que é casado com Silvana, assessora do vereador Eloir Valença (PHS). Sérgio diz que sua esposa não consegue “dormir direito” e que está irritada com o vereador, que migrou da oposição para a base governista. Pragmático, Ludovico diz que “todo homem tem um preço” e que “os políticos do Brasil estão num leilão”. “Tá tudo (sic) na promoção”, dispara.

Sérgio – você falou para minha muié (sic) que eu tava (sic) nervoso
Bonato – eu achei você tenso
Sergio – não, nervoso eu não tava (sic) não, eu não to, tô bem (sic). Eu só tô um pouco (sic) preocupado porque quem tava nervoso memo (sic) é a Silvana. A Silvana é uma pessoa muito justa, ela num gosta (sic) dessas coisas, ela tá querendo (sic) matar o Eloir.
Bonato – porque?
Sergio – porque ele virou a casaca, não é assim que a gente fala?
Bonato – eu falo assim, mas é o jogo, é o jogo sujo assim mesmo, cara.
Sérgio – ela não gosta disso não, ela chega a não dormir de noite, cara.
Bonato – imagina você que eu tô aqui (sic) vou encaminhar as coisas, que chegar no final do mês assim minha cooperativa não chegar no valor no que eu quero, eu vou embora, ué. Entendeu?
Sergio – eu tendendo
Bonato – eu tô meio (sic) xarope nisso também, mas eu tive que fazer esse jogo e tô ali, mas não foi sacanagem nem com ele não, foi coisa dele mesmo. Sérgio todo homem tem um preço e os políticos do Brasil tá num leilão tá tudo na promoção (sic).

24 de abril
Ligação 11h14 – Ludovico Bonato vai à porta da Sercomtel procurar Marco Cito e o ex-secretário diz para ele ir na prefeitura, no gabinete porque estava esperando lá
Bonato – eu tô aqui (sic) na porta da Sercomtel já
Cito – quem é que tá falando?
Bonato – é o bonato
Cito – ô bonato, eu tô te ligando aqui, vem aqui para prefeitura
Bonato – na prefeitura?
Cito – é
Bonato – é que ele marcou as 11h30, sabe que lugar?
Cito – aqui no gabinete, eu tô aqui

11h41
Ludovico Bonato telefona para o chefe de gabinete, Rogério Ortega, da porta da prefeitura. Ele estava atrás do envelope com dinheiro que seria levado ao Amauri Cardoso (PSDB), com quem negociava a compra do voto.
Bonato – Rogério eu tou (sic) aqui fora, o Marco Cito, que espera (sic) e o cara me ligou três vezes
Rogério – tá (sic) onde?
Bonato – Tou (sic) aqui na porta
Rogério – Mas da prefeitura?
Bonato - É aqui do seu lado
Rogério – ah, então tá bom, peraí (sic)

11h54 – Bonato liga para o vereador Amauri Cardoso
Bonato – tô chegando (sic) aqui me atrapalhei aqui no trânsito
Amauri – então é que nesse horário a gente tem...
Bonato – tô chegando (sinc)
Amauri – então eu fico aguardando
Bonato – é, é na Cambará, né?
11h59 – Bonato liga novamente para Amauri
Bonato – to aqui (sic) na sombra – risos
Amauri – entra aí
Bonato – Hã? Não quer pegar aqui, a gente confere aqui no carro, dá uma volta no quarteirão, mais seguro procê (sic)
Amauri – eu tô aqui (sic) numa reuniãozinha com....
Bonato – ai, ai, ai.
Amauri – é tranquilo
Bonato – eu te espero, ué
Amauri – tá só eu e o chefe, tô na sala dele, eu tô aqui na sala de reuniões aqui tá tranquilo, pode vir
Bonato – tá
12h18
Bonato liga para o chefe de gabinete, Rogério Ortega
Rogério – diga lá
Bonato – agora vocês me pagam o almoço aí, velho, que sufoco esse negócio, eu tô indo (sic), tá tudo certo (sic)
Rogério – então tá bom, beleza, depois nos falamos
Bonato – vai almoçar por aí ou não?
Rogério – eu acho que nem vai dar tempo, viu bonato?
Bonato – pois é, tá bom.
Rogério – nem vai dar tempo, mas à tarde nós conversamos, tá bom?
Bonato – tá ok, só passa essa, eu ligo pro Cito ou cê passa (sic) informação para ele?
Rogério – ah não, eu já falei com ele aqui, tá tudo tranquilo (sic)

30 de abril
Às 19h46 do dia 30 de abril, depois de ter prestado depoimento no Gaeco, o vereador Eloir Valença (PHS) liga para o prefeito Barbosa Neto (PDT), comentando o seu depoimento e pedindo para levar o vereador Amauri Cardoso (PSDB) à Comissão de Ética da Câmara. Barbosa concorda laconicamente: “pode”, diz o pedetista. Naquela tarde, Valença saiu do depoimento falando em interpelar judicialmente o tucano. Marca um café da manhã para o dia seguinte, mas é preso antes.
Eloir – tranquilo, hoje foi lá né (sic), na no Gaeco. Levantaram algumas situações lá e eu fui bastante enfático e incisivo e é não tem nada que esconder, né Barbosa.
Barbosa – é graças a Deus não tem nada, né
Eloir – e da parte da Câmara, vou precisar inclusive, vou precisar da tua da tua complacência aí, é, para eu chamar outros vereadores pra gente fazer...
Barbosa – pode
Eloir – botar o cara no Comitê de Ética, dentro da Câmara, porque acho que...
Eloir – só liguei, liguei, precisava conversar mais algumas coisas contigo pra ver como é fazer assim uma leitura, acho que é importante essa leitura, sabe prefeito.
Barbosa – vamo.
Eloir – porque daqui pra frente (sic) pode acontecer coisas que, que...
Barbosa – é verdade
Eloir – é importante a gente...
Barbosa – tá em contato sim (sic)
Eloir – tá em contato (sic)
Barbosa – amanhã cedo aí a gente senta, bate um papo e vê se chama mais outro alguém, né.
Eloir – isso, tá bom (sic).
Eloir – então, não, não tranquilo, fez bem viu Barbosa. Obrigado você ter entendido a situação
Barbosa – huhum
Eloir – fez muito bem, ééééé me manifestei você viu a minha manifestação, foi muito expressiva, acho que foi uma jogada de grande estrategista, uma mexida no tabuleiro, que os caras ficaram...

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