Polícia Civil de Londrina deve abrir inquérito para apurar como um revólver calibre 38 foi parar nas mãos dos presos do 2º Distrito Policial, que se rebelaram ontem, depois de uma tentativa de fuga frustrada. Um auxiliar de carceragem foi rendido, teve sua pistola 380 de uso pessoal tomada e ficou refém dos presos por quase quatro horas. O delegado-chefe da 10ª Subdivisão Policial (SDP), Márcio Vinicius Amaro, disse que só há duas possibilidades da arma ter entrado na cadeia: “Ou alguém cochilou no serviço ou alguém recebeu propina”, afirmou.
O delegado-chefe disse que serão apuradas também as circunstâncias que levaram o auxiliar de carceragem cair refém. “Vamos investigar, inclusive, o que ele estava fazendo na área de carceragem armado, o que é contra as normas, e se ele tem porte de arma”, disse. Márcio Amaro disse que o carcereiro Marcos Justus é um bom funcionário e que cumpre suas funções a contento. “Mas se ele pisou na bola poderá até ser demitido”, garantiu.
Juíza determinou interdição em abril
>> O 2º DP está interditado, desde abril, para receber novos presos em razão da superlotação do local. A suspensão de entrada de presos foi determinada pela juíza da Vara de Execuções Penais de Londrina, Márcia Guimarães Marques da Costa, que acatou um pedido feito pelo Ministério Público depois que o local chegou a abrigar 400 presos. No início do ano, um surto de sarna e de outras doenças de pele atingiu pelo menos 150 dos detentos e fez com que vários presos foram transferidos em regime de urgência. Ontem ela passou o dia em reunião e não pode atender o JL.Segundo o advogado Alexandre Aquino, que defende um dos líderes da rebelião – identificado apenas por Rômulo, 28 anos e preso por tráfico – a tentativa de fuga ocorreu por conta das péssimas condições da carceragem. “E isso é culpa do governo do Estado que não toma providências para dar condições dignas”, afirmou. O padre Edivan Pedro dos Santos, da Pastoral Carcerária, também acompanhou toda a movimentação durante a rebelião. Ele foi chamado pela Polícia Civil para intervir se fosse necessário, mas não chegou a conversar com os presos. “Essa situação já era prevista. Desde o começo do ano, quando houve aquele surto de doença aí, a gente vem avisando e pedindo soluções”, afirmou.
O advogado Hamilton Laertes, do Conselho Comunitário de Segurança da Zona Leste, disse que não é porque os presos cometeram crimes que precisam viver em condições subumanas. “A média de recuperação pode ser alta, desde que tenham condições para isso”, afirmou.
Depois de quase quatro horas de negociação, os presos encerraram a rebelião e entregaram as armas. Eles exigiram a presença da imprensa e que uma emissora de TV transmitisse a rendição ao vivo para garantir a segurança de todos. Uma das exigências para liberar o refém era que a Tropa de Choque da Polícia Militar não entrasse para fazer a revista das celas, após o encerramento.
O comandante do 5º Batalhão da PM, tenente-coronel Samir Geha, que acompanhava os acontecimentos no local, teve que prometer em frente às câmaras que o Choque não entraria. Pelo menos 30 homens do Pelotão de Choque e quatro cães estavam de prontidão para interferir, se a situação ficasse mais complicada.
O carcereiro, no entanto, foi liberado sem ferimentos e atendido por uma equipe do Siate, que ficou de plantão no local. A informação que ele levou um tiro de raspão no braço não foi confirmada pelo delegado-chefe. Com o fim do motim, os policiais civis foram os responsáveis pela vistoria nas celas.
Segundo informações da Polícia Civil, ontem seriam transferidos 35 presos do 2º DP para uma das penitenciárias da região e até o fim da semana, outros 35 também seriam removidos.
Susto
Vizinhos do 2º DP relataram que pelo menos sete tiros foram disparados entre as 7 e 8 horas de ontem, dentro do distrito. Um oitavo tiro foi disparado por volta das 8h30, quando as equipes da imprensa já estavam no local. “Eu acordei com um monte de tiros, levei um susto”, disse o garoto de sete anos que mora em frente ao DP. A diarista Sueli Aparecida Machado, 43 anos, correu para o 2º DP depois que a nora a informou sobre o que estava acontecendo. “A gente que é mãe fica desesperada. Meu filho de 23 anos, está ali, na área de contêineres. Tenho medo que morra”, lamentou.
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