O governador Beto Richa (PSDB) anunciou ontem uma auditoria nas contas da Polícia Civil e a reorganização de toda a estrutura administrativa da corporação. Em síntese, trata-se de uma intervenção, já que a auditagem do fundo rotativo e o novo desenho organizacional da instituição ficarão a cargo de uma empresa privada a ser contratada por meio de licitação. Ao mesmo tempo, o governador prometeu rigor nas investigações das irregularidades apresentadas pela série de reportagens iniciada no domingo pela Gazeta do Povo. A Assembleia Legislativa, o Ministério Público e o Tribunal de Contas do Estado também vão investigar as denúncias.
O secretário de Segurança Pública, Reinaldo de Almeida César, detalhou que o objetivo é que a empresa terceirizada “repense” o “desenho organizacional”, os procedimentos e atos de gestão da Polícia Civil. Ao mesmo tempo, a contratada deve fazer uma auditoria nas contas da corporação, principalmente no fundo rotativo. A Gazeta do Povo mostrou casos de delegacias fantasmas que continuam recebendo recursos do fundo. Segundo o governador, o edital de licitação para a contratação da empresa fará o planejamento será publicado nas próximas semanas. Nas palavras do governador, a Polícia Civil vai passar por “uma reestruturação administrativa completa”.
Ex-secretário se exime
O ex-secretário de Segurança Pública Luiz Fernando Delazari, que esteve à frente da pasta entre maio de 2003 e abril de 2010, disse que nunca teve conhecimento de irregularidades no fundo rotativo da Polícia Civil. Dos oito anos analisados pela série “Polícia Fora da Lei”, seis correspondem ao período em que Delazari esteve no cargo. “Este fundo é alheio, sobre o qual o secretário não tem gestão. É um fundo da Polícia Civil, que a Polícia Civil geriu. Se eu soubesse de alguma irregularidade, ia mandar apurar”, disse. “O gestor é um delegado, quem faz o controle interno é a Polícia Civil e quem faz o controle externo é o Tribunal de Contas. Isso não chega ao secretário”, completou. Delazari também se eximiu do fato do então delegado-geral Jorge Azor Pinto não ter detectado as evidências. A reportagem não conseguiu localizar o delegado Azor Pinto.MP e TCE vão investigar as contas
O Ministério Público do Paraná (MP-PR) e o Tribunal de Contas do Estado (TCE) vão investigar as denúncias publicadas na série de reportagens “Polícia Fora da Lei”, iniciada domingo pela Gazeta do Povo. O MP abrirá uma investigação na Promotoria de Proteção ao Patrimônio Público no âmbito cível e criminal. Já o TCE tomou três medidas para comprovar as irregularidades e melhorar a fiscalização nas contas do fundo rotativo da Polícia Civil. De acordo com o presidente do TCE, conselheiro Fernando Guimarães, o tribunal abrirá procedimentos de responsabilização. Caso se comprove as irregularidades, os delegados gestores do fundo poderão ter de devolver o dinheiro recebido. Além disso, Guimarães já determinou que a realização de estudo para desenvolver a melhor forma de fiscalizar o dinheiro do fundo. Hoje, a prestação de contas dessa verba está inclusa nas contas da Secretaria de Estado da Segurança Pública (Sesp). Pela proposta do conselheiro, a prestação de contas do fundo deve ser analisada de forma específica e não dentro das contas da secretaria.Para Almeida César, as denúncias apresentadas pela reportagem revelam um “caos” na segurança pública, alicerçado não só na estrutura organizacional da Polícia Civil, mas também na falta de investimento e no sucateamento das forças policiais do Paraná. “Tudo que foi publicado só reforça o que sentimos desde o primeiro dia: que há um profundo desmantelo da segurança pública. Municípios sem policiais, viaturas paradas, necessidade de se recompor as estruturas administrativas”, definiu.
Falhas históricas
O governador e o secretário atestaram que as suspeitas de irregularidades no fundo rotativo da Polícia Civil são um problema histórico. Há pelo menos 15 anos já haviam sido identificados indícios de falhas nos repasses de recursos às delegacias do interior do Estado.
Entretanto, não foram divulgados detalhes dos casos. “Desde 1996 existe registro na Secretaria de Segurança de reclamação na gestão desse fundo rotativo em várias regiões do Estado”, apontou Richa.
O levantamento feito pela Gazeta do Povo considerou o período entre 2004 a 2011, período em que há dados disponíveis no portal da Transparência do governo do Estado. Uma equipe de jornalistas identificou valores excessivos para municípios pequenos e foi a campo para comprovar que o dinheiro saía das contas da Polícia Civil e não chegava ao destino, muitas vezes porque nem delegacia existia na cidade.
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