segunda-feira, 4 de junho de 2012

Custo da Assembleia cresceu 83%


Pela previsão orçamentária de 2012, a Assembleia Legislativa paranaense tem um “custo” per capita de R$ 40,45. Esse valor é um dos menores do Brasil – apenas sete estados ficam abaixo desse patamar – mas é um dos que mais cresceu nos últimos anos. Em 2007, o orçamento da Casa correspondia a R$ 22,10 por paranaense. Os repasses ao Legislativo, assim como os demais poderes, estão vinculados à Receita Corrente Líquida (RCL), que teve uma variação mais ou menos nesse mesmo patamar. Mas as despesas gerais do estado não cresceram nesse mesmo ritmo.
A Lei Orçamentária Anual (LOA) do estado prevê um repasse de R$ 422,4 milhões à Assembleia neste ano, além de R$ 259,1 milhões para o Tribunal de Contas do Estado, órgão auxiliar. Na LOA de 2007, o montante total era de R$ 373,5 milhões (R$ 229,5 milhões para a Assembleia e R$ 143,9 milhões para o TC). Mas, nesse período, a população paranaense teve um crescimento muito pequeno (0,6%), e por isso o custo per capita subiu muito. Nesses últimos cinco anos, as despesas totais do estado passaram de R$ 18,8 bilhões para R$ 32,4 bilhões.
Oito secretarias vão receber menos dinheiro
A previsão é que o Legis­­lativo paranaense receba valor equivalente ao da Secretaria da Agricultura e do Abastecimento(R$ 429,3 milhões). Mas as verbas são superiores aos das pastas da Justiça e Cidadania (R$ 371,3 milhões); do Desenvolvimento Urbano (R$ 260,7 milhões); do Trabalho e Emprego (R$ 151,9 milhões); do Meio Ambiente (R$ 148 milhões); Cultura (R$ 89,2 milhões); da Indús­­tria (R$ 44,8 milhões); do Esporte (R$ 29,4 milhões) e do Turismo(R$ 12,5 milhões). A situação é semelhante ao que ocorre em nível federal. Há 15 dias, reportagem da Gazeta do Povo mostrou que o Congresso Federal, com R$ 7,6 bilhões, gasta mais do que sete estados brasileiros. Além disso, também tem mais verba do que 33 dos 38 ministérios. (RF)
Os valores que constam no orçamento não serão obrigatoriamente gastos. Mas, como a maioria das assembleias legislativas não fornece claramente a execução orçamentária – caso do Paraná –, a única maneira de comparar a rea­­lidade de vários estados é por meio da LOA.
Importância
O presidente do Obser­­vatório Social do Paraná, Sir Carvalho, ressalta que a Assembleia Legislativa é uma instituição muito importante para a sociedade, e que é preciso bancar o custo disso. “Mas quais são os parâmetros? Quando o serviço é bom, o cidadão está disposto até a pagar a mais. Quando é mais ou menos, há restrições. E quando o serviço é ruim, ninguém quer pagar nada”, observa.
Para ele, a sociedade deve ponderar se o Legislativo vem cumprindo seu papel, que é o de legislar e fiscalizar. “Se cada deputado fizesse algum tipo de fiscalização, teríamos muito menos problemas no futuro. Esse escândalo da segurança pública? Como é que não foi levantado pela Assembleia?”, diz ele, em referência às denúncias sobre mau uso de bens e recursos públicos pela Polícia Civil e Militar, conforme noticiado pela Gazeta do Povo. “A sociedade precisa rever alguns paradigmas. O deputado não foi eleito só para fazer emenda ao orçamento. Ele é o fiscal nomeado pelo povo.”
O orçamento da Assem­­bleia também é maior do que a maioria das cidades paranaenses. Em 2011, o Legislativo só não gastou mais do que oito municípios – Curitiba, Londrina, Maringá, São José dos Pinhais, Araucária, Ponta Grossa, Cascavel e Foz do Iguaçu.
O professor da Ciência Política da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Fabrício Tomio considera o gasto alto. “O custo administrativo da Assembleia é elevadíssimo. Embora a porcentagem pareça pequena em relação ao orçamento público estadual, é muito alta, além de injustificável, quando comparada a alguns municípios”, diz.
O valor total destinado para a Ação Legislativa – incluindo a Assembleia e o órgão auxiliar Tribunal de Contas –, corresponde a 2,1% do orçamento estadual. O montante também é inferior ao repassado em nível municipal – em Curitiba, a Câmara tem direito a até 4,5% do orçamento. “O problema é o mesmo, em proporções menores, se considerarmos o custo dos parlamentos municipais”, acrescenta Tomio.
Redução passa por corte de comissionados
Segundo especialistas, uma medida importante para a redução de gastos do Legislativo é o corte dos cargos comissionados e de despesas voltadas para o uso pessoal do deputado. “A disponibilidade de recursos por gabinete não necessariamente melhora a representação política”, avalia o cientista político Fabrício Tomio. Mas ele acha difícil que os parlamentares decidam cortar os próprios recursos.
O que vem ocorrendo é justamente o contrário. No dia 23 de maio, a Mesa Executiva aprovou o aumento de R$ 60,1 mil para R$ 78,5 mil a verba de gabinete que cada deputado pode gastar para a contratação de até 23 funcionários comissionados. Isso gerará um custo extra de R$ 12,1 milhões ao ano.
Atualmente, a Assembleia Legislativa tem 1.741 funcionários, dos quais 1.251 são comissionados. “O deputado é um político, que precisa de apoio técnico. Mas qual a estrutura técnica adequada? O número de cargos comissionados é bastante alto. De novo, é preciso dizer: se houver excelência, o serviço se torna barato. Mas se o serviço é medíocre, ele se torna muito caro”, avalia Sir Carvalho, presidente do Observatório Social do Paraná.
O analista político da Universidade Estadual de Londrina (UEL) Elve Cenci defende que os primeiros passos para redução da verba são a racionalização das contratações e a transparência nos gastos. “Um dos problemas é a prestação de contas, que muitas vezes são fictícias. O gasto do parlamentar deve ser compatível com a função que desempenha”, diz.
Cenci também aponta a importância de a população acompanhar os gastos dos parlamentares. “A justificativa para muitos gastos exorbitantes feitos por deputados, por exemplo, é que as contas estão dentro da lei. Mas a legalidade não se sobrepõe a princípios como o da moralidade e razoabilidade. A população precisa saber como os parlamentares estão gastando dinheiro público”, afirma.
Para Sir Carvalho, o fato de ocasionalmente o Legislativo devolver verba ao Executivo só reforça a necessidade de diminuir os repasses. “Isso é um teatro e tem ocorrido muito no Brasil. A previsão orçamentária é de um valor, não se gasta tanto, e daí se faz um cheque gigante para aparecer na foto. O cidadão menos informado pode achar boa a devolução, mas o fato é que o dinheiro não devia ter ido”, observa. Segundo ele, essa prática pode gerar clientelismo, e o melhor é que o valor entre no bolo orçamentário para a divisão entre todas as áreas. “O dinheiro não tem que fazer esse caminho de ida e volta. E, se volta, nenhum deputado pode carimbar a verba, dizendo onde deve ser aplicada”, acrescenta. 

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