terça-feira, 5 de junho de 2012

Extermínio simbólico precede a morte física


A minha infância foi meio embaçada. Meu pai discutiu com minha mãe e eu fui morar com ele e meu tio em outra cidade. Eu tinha 7 anos. Meu pai era velho, já. Não conseguia cuidar de mim e eu fui parar pra adoção, fiquei um tempo num orfanato. Depois uma tia minha veio me buscar. Fiquei morando com ela, daí minha mãe veio e eu mudei de cidade de novo. Depois de uns três anos fiquei sabendo que meu pai tinha morrido. Fiquei magoado, eu gostava dele. A gente mudou de novo e veio pra Londrina. Eu, meus irmãos, minha mãe e meu padrasto. Eu tinha uns 14 anos aqui em Londrina quando comecei a me envolver com o tráfico. Começou na escola, eu fumava um baseado, conhecia outros que estavam no tráfico. Eu não sei direito porque. Era mais pra curtir. Daí, por causa da droga comecei a discutir com minha mãe. Ela me mandou embora de casa umas 10 vezes. Eu ficava na rua conversando com os colegas para esquecer da briga e arranjar motivo para voltar pra casa. Eu sempre queria voltar. Eu voltava, mas sempre acabava expulso de novo. Uma vez eu discuti com meu irmãozinho e ela me mandou embora de novo. Acabei indo morar na Casa Abrigo. Eu vivia do tráfico, até que uma vez fomos fazer um assalto à mão armada e eu caí.”
O adolescente saiu recentemente do Centro de Socioeducação (Cense I) de Londrina. "Eu pensava no momento mesmo. Vendia [drogas] para comprar coisas e droga. Eu sempre achei que pra mim não havia muita chance de vida diferente." Questionado se hoje consegue projetar um amanhã, se cala.
‘Desigualdade gera negação de vida e de direito’
“Sempre achei que pra mim não havia muita chance de vida diferente.” Essa fala do adolescente entrevistado pelo JL já foi ouvida inúmeras vezes pelo advogado e consultor em Direitos Humanos, Renato Roseno. “’Pra mim não tem mais jeito’. Essa fala representa a morte moral, política, do cidadão. É o extermínio simbólico. A morte que precede a morte física”, diz. “É lamentável que a sociedade tenha que ouvir uma fala como essa de alguém com 16 anos. Fizeram ele acreditar nisso.” A morte simbólica, segundo Roseno, é fruto do sistema capitalista como produtor do processo de dissociação, no qual esses adolescentes não se vêem como detentores de direitos. “Eles se veem como um nada.” A desigualdade gera negação da vida e de direito. “É uma vida sem desejo de viver”, diz. Destituídos de direitos, essas pessoas são vistas pela sociedade como os perigosos das periferias, como seres que devem viver aprisionados e muitas vezes, morrer. “Há um clamor pelo encarceramento de adolescentes e jovens. Há um enquadramento desse novo perigoso das periferias urbanas e que passa a ser “etiquetável”, sobretudo depois de entrar no sistema de aprisionamento. Nós transitamos muito bem com a ideia de que há os matáveis nessa sociedade.”
A ausência de sonhos é um grande fator de risco, na avaliação da presidente da Andi, organização da sociedade civil que atua com direitos da criança e do adolescente, Cenise Vicente. “Quando o menino não consegue se ver no futuro vale o aqui e o agora.”
Ela defende que a sociedade comece a olhar para a trajetória que conduziu esses meninos ao ponto em que se encontram para mudar essa realidade. E não apenas para seus atos infracionais. “É preciso mudar a concepção ontológica de delito. Como se fosse parte da natureza do sujeito. Assim como se constrói perspectiva de futuro, também se constrói o delito. A produção do delito é estruturada socialmente, tem o crime organizado oferecendo, tem a escola expulsando, tem um conjunto trabalhando para que o delito aconteça.”
Ela afirma que a violência é um problema transgeracional. A pessoa que foi vítima pode potencialmente virar um agressor. “Ela repete a cena em outro lugar. Entender a agressão dentro de um contexto é dar oportunidade para o menino escrever outra história sobre ele mesmo. Ele tem que descobrir quem é e quando pode falar sobre quem ele é, não precisa repetir certos comportamentos.”
Amanhã – Encerrando a série, uma abordagem das políticas públicas desenvolvidas no Estado e no Município

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